Na praça da cidade esquecida pelas visitas, Indigentes e Desocupados perseguem vidas de exclusão, impermeáveis ao pequeno travão que por ser pequeno, nem o vimos chegar e nos ajoelhou a todos.
São Pretos de canadiana gasta, são Velhos de barba e gorro sujos, são Mulheres acabadas pelo álcool, invisíveis aos olhos dos que passam apressados na ilusão de que a passagem fugaz que julgam absoluta, do controlo que não sabem não ter, os veem todos como estrangeiros na sua terra.
Canteiros humanos, plantados nas orlas dos jardins de túlipas memoriais, fumam, falam para o imaginário que os quer ouvir “- A culpa é do corona”. O tempo, seu único bem, é pena a cumprir, demoradamente, sem outro alívio que não o sono, a carrinha nocturna.
Heras antigas decorando paredes velhas, as Putas aliciam o sol e homens envergonhados de si mesmos “- Queres ver, filho?”. São mães, amam. Mas vendem apenas as mamas, sem saber que, talvez vendessem mais se vendessem a mãe que são.
Passam mais homens de casaco ao ombro ou debaixo do braço, passam mais mulheres com carteiras e sacos de compras, encolhem os ombros aos pedidos de uma moeda “- É para comer”. Para vinho! P’rá droga! Preto sentado com canadiana por companheira não come, só bebe. Mulher emaciada e sem dentes não come, só chuta.
Quem vê quem? Quem julga quem? Qual a pessoa real em cada um? A do espelho da loja ou a do espelho da Praça dos Poveiros?
A única diferença entre uns e outros é a hipocrisia crente de pertença, essa metamorfose damoclita onde cada qual se vê apenas com os seus olhos, alheios às exclusões latentes. Mas, por quanto tempo será possível que não nos reconheçamos no espelho dos Poveiros?

