Tudo começa com uma viagem. Mesmo quando não sais do país, da cidade, de casa ou ti mesmo. Aquele momento em que sentes que tu já não és tu e o que vês não é mais o que vês. Quando começa, raramente o sabes. Ainda que a viagem seja física, vás a Vigo às ostras ou ao Vietnam aos grilos, a viagem nunca começa naquele dia em que fechas a porta e colocas a mala na bagageira do Uber. Tão pouco começa quando, ao computador, compras o bilhete de avião e reservas o hotel. Vem mais de trás. Começa antes mesmo de te lembrares que queres voltar a comer ostras em Vigo, acompanhadas de cava ou que te faria bem sentares-te num passeio em Ho Chi Minh City, na República Socialista do Vietnam, e comer uma espetada de grilos acompanhada de uma coca-cola gelada.
E quando te decides a ser algo que não és, mas gostarias de ser? Quando começa essa viagem em que empreendes, tomas decisões, planeias e executas ações que te levarão a ser algo que não és? Não será essa também uma viagem? Não será esta, A viagem? Chegarás algum dia ao fim? Ou, como em quase todas as viagens, inevitavelmente regressarás a casa, a ti, ao que és e sempre foste? E se assim for, quão longe terás ido de ti e porque regressaste?
Tudo começa com uma viagem. Mesmo quando não sais de ti mesmo. Porque viajas então? Porque te sentes inerte, inútil e acabado. Porque que a noite é o teu dia e o teu dia um pesadelo que se repete a cada noite. Porque sabes que a vida que carregas como um fardo, te é imposta como uma dádiva que não tens forças para recusar. Mesmo que felicidade e harmonia sejam palavras vazias, ouvidas em corpos distantes e de parecença tão estranha como familiar. Procuras então a viagem que é mais uma fuga. Primeiro no vulgar, no mundano, no que não te faz pensar, na inércia, na inutilidade e futilidade e no fim. Entopes-te com música, internet, tv e textos. Tudo isto cai sobre o daimon que silencias para que a viagem não comece ou que outros não vejam que já partiste. Mas logo a música, a internet, a tv e os textos te deixam uma secura na boca e no nariz que se espalha pela pele e te inunda a alma. Já não amas, já não dormes, o sol já não te aquece, já não és tu. Só aí sabes que o daimon que tentas esconder, é mais forte do tu e que a tua viagem há muito começou. Se o verdadeiro início de uma viagem física é intangível e se perde algures entre a química cerebral e colocares a mala na bagageira do Uber, a viagem de ti para qualquer lada, para qualquer coisa é ainda mais esquiva e elusiva, pois não há um momento charneira, qualitativo, que te diga que estás em movimento. Fica-te apenas a convicção, qual fé desprovida de divino, que tudo começa com uma viagem, da qual nada sabes: se, onde ou quando começou; qual o seu destino; como lá vais chegar e; se, quando, ou de onde voltas.
Cinquenta voltas dá o pensamento sobre si mesmo e cinquenta vezes regressa ao ponto de partida. Se houve (se há) uma viagem, quando começou(a)? E onde te leva? Porque te levas a ti mesmo, prisioneiro da liberdade, a viajar continuamente às interrogações recorrentes e inúteis da inquietação? Queres viver livre, uma vida com sentido e propósito. Queres a felicidade e a harmonia. Vai buscar-la! o daimon impele-te. Essa peste que não te deixa simplesmente existir, vegetar majestosamente como uma grande oliveira, isolada no cimo de um monte, vogando silenciosamente pelas décadas e pelos séculos, em milénios de contemplação acéfala e de dádiva constante. Mas, e se ele te impele a algo visto como improdutivo e te deixa no último lugar de uma corrida a sós com a tua circunstancialidade? Se ele não é mais que um réprobo de si mesmo. um ferrete auto-imposto que te obriga a ser livre, crítico e pensante. Procuras então a fuga, na forma de uma viagem imóvel, não só para fora de ti, mas para fora desse daimon que, ocupando-te, te encerra e se encerra em ti mesmo, qual Narciso condenado a amar apenas a sua figura porque se vê só na multidão de pessoas sós. Poderás fazê-lo, deverás fazê-lo. E aí não estarás mais só. Há a realidade, há o mundo que te assusta a cada interação, a cada olhar que te tolhe a vontade, a cada escolha que te calha fazer. O mundo do qual fugiste erguendo um daimon protetor, é agora aquele que de vai permitir ser romeiro e voltar ao que sempre foste. Não um iluminado de ti mesmo; não um protetor da tua humanidade íntima; não um altar espelhado, feito de cegueira e surdez. Sais agora ao mundo que volta a ser teu sem o possuires; onde deixas de ser um hóspede na vida dos que te rodeiam; onde enfrentas o nada que é o tudo que há.
E vem depois o cansaço no corpo, a terra nas unhas e o suor na testa. Semeias, regas, estendes os braços. Vives de rebentos, aqui e ali, resgatados a pedras e a cantos de muros sombrios. Arqueias as costas e vês o mundo, a arder, passar à tua frente, seguro e indiferente. Cansas-te. Tens sono, muito sono. Dormes demais, fora de horas, em todo o lado. Logo conversas a dormir, trabalhas a dormir, vives a dormir. Enquanto dormes a vida, o cheiro da realidade, das conversas, do trabalho e da puta da vida toda, passa pelos teus olhos a arder como um refrigério de herói; a indiferença em que te banhas continuamente, num banho cinzento e amorfo, transforma-se em glória pintada a aguarela oralmente refrescada na tua cabeça; a frieza dos olhares nus, cavos, cromados de superficialidade e civismo, que se cruzam com o teu em lampejos baços, são abraços fraternos de braços imaginados. Castiga-te não desistir. E ainda assim não desistes, porque há ainda quem te julgue um herói, que veem o que já lá não está. Quem de ti espera que sejas eterno. E continuas; por esses. Bebes a derrota na melhor taça e empunhas o troféu conquistado de punho vazio. Envergas as lágrimas como um brilho carismático. O sono é para eles a ponderação da mente arguta. A angústia, a tensão do desafio desmedido. E aí, nada te há-de parar. Nem mesmo tu.

