Fala-me da tua vida, atiras tu despreocupadamente, enquanto te recostas na cadeira e sorves um golo de chá gelado. Poderia responder-te de imediato, como sempre desejei, a estilo de fuga, entre o humor e o inconsequente. Tivesses perguntado “o que fazes?” E teria respondido, assim, sem pensar, “faço ginástica. Três vezes por semana”. E complementaria o seu sorriso surpreendido com, “… e sou um eleitor assíduo”.
Só que não foi assim. Fala-me da tua vida, embora atirado despreocupadamente, traduzia o que parecia ser uma vontade genuína de ficares a conhecer-me; quem eu sou e não apenas o que faço, ou sonharia fazer. Disseste-o com o corpo e com os olhos, que são corpo mas que tantas vezes são traídos por ele e tantas vezes o traem. Tanto é assim que apenas quando estão alinhados, a verdade existe. Como se apenas da soma de dois positivos ou dois negativos a verdade se apresentasse, inequívoca ao interlocutor. A verdade verdade, e não a verdade que desejamos verdadeira.
Queres então, diz o teu corpo e dizem os teus olhos, que te fale da minha vida, porque me queres conhecer. Para quê não sei; tão-pouco porquê. Que propósito te move; que esperas alcançar; como queres processar essa informação.
No meio segundo que passou entre ouvir-te e abrir a minha boca, ponderei, de forma denodada e com vigorosa reflexão e concluí:
- Que me apresento a toda a gente, e consequentemente a ti também, envergando uma, senão muitas, máscaras;
- Que essas máscaras me são entregues por toda a gente, e consequentemente por ti também, para que eu as envergue nas dinâmicas que estabeleço com toda a gente e, consequentemente, contigo também;
- Que essas máscaras são facilitadoras das interações entre toda a gente e, consequentemente, entre mim e ti também;
- Que não envergo essas máscaras de forma acrítica, mas sim apenas após as submeter a um processo mental, pessoal e crítico;
- Que esse processo, reflexivo na sua natureza, torna a máscara única e original, mas que, ainda assim, a mantém reconhecível por toda a gente e, consequente, por ti também;
- Que as máscaras são um processo tão enraizado, que aparentam ser transparentes, que nos vemos a nós próprios, e consequentemente eu (e tu) também, não pelo que somos, mas pelas máscaras que nos conferem/adaptamos e que adaptam o que somos a elas;
- Que no fim, nada resta de nós senão as máscaras, e que sem elas não existimos enquanto pessoas;
- Que tenho de me apresentar a ti como pessoa se não quiser ser percebido como uma ameaça ou ser simplesmente ininteligível.
No meio segundo seguinte entre ouvir-te e abrir a boca, vi como o teu corpo se alinhava com os teus olhos nesse alinhamento, vi tua máscara.
Segundo e meio depois, com a boca informada do seu papel, deixei pausadamente cair, como que declamando, “faço ginástica e sou um eleitor assíduo”.
E foi aí que os teus olhos me perguntaram: se nada há de humano por trás da máscara, então o que fica para amar?

