Corria o ano dos anos mais loucos que vivemos
Em anos presos uns aos outros como uvas como
Dias e semanas que se ligam e que se fundem
Em massas indistintas; corre tempo e nada mais
Era o ano dos horrores; era o ano dos amores
Imperfeitos feitos para todas as redes sociais
Imóveis no seu contínuo desenrolar de venturas
Fátuas e indignações Atávicas, jorrando medo,
Ignorância, como artéria cortada com o olhar
Corria o ano do que ninguém gosta; ninguém ama
O ano perdido no meio dos anos que ninguém irá
Gostar de amar; gostar de sentir o corpo do outro
No seu corpo só, porque só é corpo que assim unido
Fica por se entregar; “SOU O ALTAR DA MINHA FÉ!”
Sou o vigário da minha dor, a rês do meu consumo
Divino numa selfie, num smartphone nato prístino
Liso, frio, intangível na sua elegância efémera
Ninguém gosta da sua alma no espelho cavado
Para lá da menina dos olhos castrados pelo
Torpor voraz do tempo, Nu pela velocidade crua
Descarnado pela fricção dos posts, dos likes,
Das emoções em bolas virtuais padronizadas
Pela não-existência de um ser digital omnisciente
Ninguém gosta de saber que vai morrer hoje ou
Um dia qualquer daqui a muitos anos, deitado ou
Acordado dormindo nos braços da sua idolatria
Ninguém gosta do amor que é entrega ao outro
Que se entrega e juga e guia docemente os passos
De ambos por meigas brasas, por doces aflições
Ninguém gosta de dizer “Fiz mal. Desculpa”
Ninguém quer ouvir “O teu poema é uma merda”
Todos se querem ligar a todos a toda a hora e
Ninguém gosta de se dar sem tudo receber
Que faz então sentido?