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Rua / Street

women in poverty with child

Descendo a rua, um pouco triste comigo mesmo, vi uma mulher sentada numa soleira de porta, aguardando o autocarro. Os sacos de compras coçados e guarda-chuvas cansavam-na. Mas, mais do que o cansaço, ao qual me manteria alheio, vi-a apenas quando vi que o seu olhar carregava três filhos e desespero. Como se aqueles filhos que a rodeavam e impediam a passagem de transeuntes absortos, nada mais fossem que extensões dela. Pálidos reflexos em espelhos côncavos. Cópias não apenas da sua face mas da sua existência vazia, como se todo o leite, comida e amor por ela dados não fossem mais do que uma forma ou outra de desespero. Filhos nascidos não de serenidade, de comida, mas de desespero. Tinha desespero para dar e vender, quisesse alguém comprar-lho. Seria então uma milionária desesperada, a rainha das sandes de desespero.

Desesperei na ânsia de apagar todo aquele desespero da minha mente. Aquela face desesperada, aqueles desesperados sacos de compras; toda aquela desesperada família. O quadro desesperado queimou-me a mente por tempos e tempos. Do princípio ao fim dos tempos, porque, sei-o agora, não existe mulher, não existem filhos e não existem sacos de compras. Existe apenas desespero.

Walking down the street, feeling a bit sorry for myself, I saw a woman sitting on a doorstep, waiting for the bus. She looked tired, judging from the grocery bags and umbrellas she was carrying. But, more than fatigue or worry, her face was burdened with three children and despair. As if the children around her, one sitting beside her and two standing in front of her, blocking the pavement for the many casual and unaware zombies, were no more than crude extensions of herself. Pale reflections in concave mirrors, copies not only of her face but also of her despondent existence, as if the milk, food, and love she gave them were nothing more than despair. Children created not out of love, not out of flesh and blood, not out of serenity, not out of food, but out of despair. She could sell despair, should someone buy it. She would be a desperate millionaire, the queen of despair and chips.

I became desperate to erase that despair from my mind. That despaired face, those despaired shopping bags; that despairing family. The despaired picture lingered in my mind for a long time. From the beginning to the end of times. Because, as I know now, there’s no woman, no children, no family, and no shopping bags. There is only despair.

Written by Pedro

Memória

Memória / Persistência